Apesar dos recentes artigos de opinião liderados por Tim Noakes defendendo a tese de que dietas com restrição de carboidratos não prejudicam o desempenho, novas evidências revelam com ainda mais clareza a fragilidade de seus argumentos.
O que diz a literatura..
Um dos debates mais persistentes da nutrição esportiva contemporânea diz respeito à compatibilidade entre dietas com baixa disponibilidade de carboidratos e o desempenho atlético de alto nível. Nas últimas duas décadas, defensores das dietas low-carbohydrate high-fat (LCHF) argumentaram que a adaptação metabólica induzida por essas intervenções permitiria aumentar substancialmente a capacidade de oxidação de gorduras, reduzindo a dependência de glicogênio muscular e de carboidratos exógenos durante o exercício. Temos inclusive um texto no blog sobre esse assunto: “Menos carboidrato, mais performance?”
Essa hipótese foi recentemente revitalizada por Noakes e colaboradores em uma extensa revisão publicada na Endocrine Reviews (https://doi.org/10.1210/endrev/bnaf038), na qual os autores questionam vários paradigmas tradicionais da fisiologia do exercício e defendem que a ingestão de carboidratos teria um papel menos importante para o desempenho do que normalmente se admite. Embora essa interpretação tenha recebido atenção considerável, ela permanece controversa e, mais do que isso, está em franco desacordo com uma parcela substancial da literatura experimental. Nesse contexto, uma nova e relevante contribuição ao debate vem da revisão sistemática e meta-análise de Gawełczyk et al. (2026), que avaliou os efeitos das dietas LCHF sobre diferentes aspectos do desempenho anaeróbio e de alta intensidade em atletas treinados.
Enquanto grande parte do debate sobre dietas cetogênicas tem se concentrado no desempenho aeróbio de longa duração, os autores dessa revisão sistemática direcionaram sua análise especificamente para o desempenho anaeróbio de alta intensidade, reunindo 13 estudos envolvendo atletas treinados. Os resultados sugerem que os efeitos da restrição crônica de carboidratos são altamente dependentes da demanda metabólica da tarefa, sendo menos favoráveis justamente quando a produção rápida de energia via glicólise se torna determinante para o desempenho.
Embora a meta-análise tenha identificado um efeito pequeno e não significante sobre medidas isoladas de potência anaeróbia (d = +0,29), os autores observaram que parte desse aparente benefício pode ser explicada por reduções de massa corporal induzidas pela dieta, melhorando indicadores expressos em termos relativos (W·kg⁻¹) sem necessariamente aumentar a produção absoluta de potência. Em contraste, quando foram avaliadas tarefas que exigem esforços repetidos de alta intensidade — situação comum em esportes coletivos, esportes de combate, provas de meio-fundo e muitas modalidades de endurance competitivo — a tendência foi de pior desempenho sob restrição de carboidratos (d = −0,33), com alguns estudos demonstrando prejuízos substanciais na capacidade de sustentar intervalos intensos.

Talvez o achado fisiologicamente mais interessante tenha sido a redução consistente das concentrações de lactato sanguíneo observada nas intervenções low-carb/cetogênicas (d = −0,89). Frequentemente, defensores dessas dietas interpretam menores concentrações de lactato como evidência de maior eficiência metabólica. Entretanto, os próprios autores alertam que essa interpretação pode ser equivocada. Segundo a revisão, a menor produção de lactato reflete apenas uma redução do fluxo glicolítico decorrente da menor disponibilidade de carboidratos, e não uma adaptação favorável ao exercício intenso. Em outras palavras, o menor acúmulo de lactato representa justamente uma diminuição da capacidade de utilizar a via metabólica importante para exercícios de alta intensidade.
Menor acúmulo de lactato representa justamente uma diminuição da capacidade de utilizar a via metabólica importante para exercícios de alta intensidade.
Esse ponto é particularmente relevante quando considerado à luz dos argumentos apresentados por Noakes e colaboradores. Um dos pilares da hipótese low-carb é que o aumento da oxidação de gorduras permitiria preservar ou até melhorar o desempenho esportivo após um período adequado de adaptação. Contudo, a literatura contemporânea mostra de forma bastante consistente que o aumento da capacidade oxidativa para lipídios não elimina as limitações bioenergéticas impostas pela menor disponibilidade de glicogênio quando a intensidade do exercício exige elevadas taxas de geração de ATP. Nesse sentido, os resultados sintetizados por Gawełczyk et al. convergem com observações anteriores de Burke, Hawley, Spriet, Stellingwerff e outros pesquisadores, indicando que a adaptação cetogênica aumenta substancialmente a oxidação de gordura, mas não consegue preservar integralmente o desempenho em situações dependentes de elevada contribuição glicolítica.
Assim..
mesmo que se admita a possibilidade de aplicação de dietas low-carb em contextos específicos — especialmente em exercícios prolongados realizados em intensidades relativamente baixas — os dados mais recentes sugerem que a generalização dessa estratégia para modalidades competitivas caracterizadas por mudanças de ritmo, ataques, sprints, acelerações ou esforços próximos ao máximo permanece difícil de sustentar. O trabalho de Gawełczyk et al. reforça a interpretação de que a adaptação ao uso de gordura como combustível pode coexistir com limitações funcionais importantes quando a fisiologia do evento competitivo exige altas taxas de fluxo glicolítico e rápida disponibilidade energética.
Esse argumento é particularmente forte porque não depende de defender a hipótese tradicional de fadiga por depleção de glicogênio, como faz Noakes. Mesmo que se aceite parte das críticas de Noakes aos modelos clássicos de fadiga, a questão permanece: a capacidade de sustentar esforços repetidos de alta intensidade continua fortemente associada à disponibilidade de carboidratos e ao fluxo glicolítico.
Referências
Burke LM, Noakes TD. Does a low-carbohydrate diet impede endurance sports performance? Yes. Am J Clin Nutr. 2026;123:101268. doi:10.1016/j.ajcnut.2026.101268.
Noakes TD, Burke LM. Does a low-carbohydrate diet impede endurance sports performance? No. Am J Clin Nutr. 2026;123:101270. doi:10.1016/j.ajcnut.2026.101270.
Gawelczyk M, Chycki J, Maszczyk A, Zając A. Effects of low-carbohydrate and ketogenic diets on anaerobic performance in competitive athletes: a systematic review and meta-analysis. Nutrients. 2024;16(5):658. doi:10.3390/nu16050658.
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