No início de março de 2026, o ugandense Jacob Kiplimo fez história. Na Meia Maratona de Lisboa, ele completou os 21 km em impressionantes 57 minutos e 20 segundos, estabelecendo um novo recorde mundial da distância. A marca superou o recorde anterior de 57:30, alcançado por Yomif Kejelcha em 2024, consolidando Kiplimo como o homem mais rápido da meia maratona.
Há, no entanto, um detalhe que chama atenção: nos pés do atleta estava um tênis com placa de fibra de carbono de comprimento total, pertencente à categoria dos chamados super shoes — modelos que podem custar facilmente mais de R$ 1.800.
A pergunta que surge quase imediatamente:
será que eu preciso de um tênis desses para correr melhor?Antes de sair em busca do modelo mais caro da loja, vale examinar o que a literatura científica realmente mostra sobre tênis de corrida, risco de lesões e desempenho.
Tênis, impacto e lesões
Qualquer pessoa que já tenha considerado começar a correr provavelmente ouviu algum alerta sobre a escolha do tênis. É comum ouvir que o impacto da corrida seria prejudicial ao sistema musculoesquelético ou que cada corredor precisaria de um modelo específico de calçado de acordo com seu tipo de pisada — pronada, neutra ou supinada.
Não raro, essas recomendações são acompanhadas por um certo tom de ameaça: correr sem o “tênis adequado” seria praticamente um convite para lesões.
Existe, naturalmente, uma indústria que se beneficia desse tipo de narrativa, e que se apoia na ideia de que o risco de lesão pode ser minimizado pela escolha de um modelo específico de calçado.
Entretanto, as evidências científicas disponíveis atualmente não sustentam essa hipótese. Estudos que investigaram a prescrição de tênis com base nas características do pé ou no padrão de pisada mostram que essa estratégia não reduz a incidência de lesões em membros inferiores em corredores recreacionais ou treinados (Relph et al., 2022).
Isso não significa, contudo, que os tênis não desempenhem nenhuma função relevante. Sua função primária é relativamente simples: proteger os pés contra agressões mecânicas externas, como irregularidades do terreno, superfícies abrasivas ou objetos presentes no percurso (Yawar & Lieberman, 2024).
O impacto da corrida é realmente um problema?
Outro argumento frequentemente utilizado é que o impacto da corrida seria excessivamente elevado e potencialmente danoso para articulações e ossos.
Contudo, medições biomecânicas indicam que as forças de reação do solo durante a corrida geralmente variam entre aproximadamente 1,5 e 3 vezes o peso corporal, dependendo da velocidade e da técnica de corrida (Yu et al., 2021).
Essas magnitudes não são particularmente elevadas para o sistema musculoesquelético humano, especialmente em indivíduos adaptados ao treinamento.
Além disso, a maior parte da dissipação e absorção dessas forças ocorre por meio da ação muscular, e não do calçado. Estruturas musculotendíneas dos membros inferiores desempenham papel central na atenuação das forças de impacto.
Sob essa perspectiva, investir em músculos bem condicionados, progressão adequada de carga de treino e aperfeiçoamento da técnica de corrida provavelmente representa uma estratégia muito mais eficaz para reduzir o risco de lesões do que a escolha de um modelo específico de tênis.
Quando o tênis pode interferir na mecânica da corrida
Embora não haja evidências consistentes de que tênis específicos previnam lesões, alguns tipos de calçado podem interferir na mecânica da corrida.
Modelos com elevada diferença de altura entre calcanhar e antepé ou com calcanhar muito elevado podem induzir alterações no padrão de aterrissagem do pé. Nesses casos, a fase de contato inicial tende a ocorrer com contato predominante do calcâneo, associado a maior dorsiflexão do tornozelo no momento da aterrissagem.
Esse padrão biomecânico aumenta a demanda sobre os músculos do compartimento anterior da perna, particularmente o músculo tibial anterior, responsável pela dorsiflexão do tornozelo e pelo controle excêntrico do posicionamento do pé durante a fase de contato inicial da corrida.
A sobrecarga repetitiva dessa musculatura pode, ao longo do tempo, contribuir para o desenvolvimento de quadros dolorosos na região anterior da perna, como a síndrome do estresse tibial medial, popularmente conhecida como canelite
Quando o tênis pode melhorar o desempenho
Se há pouca justificativa científica para investir em tênis caros com o objetivo de prevenir lesões, a discussão muda de figura quando consideramos o desempenho em provas de média e longa duração.
Um dos principais determinantes fisiológicos do desempenho nessas provas é a economia de corrida. Esse parâmetro descreve a quantidade de energia metabólica necessária para sustentar determinada velocidade de corrida. Quanto menor o custo energético para uma determinada velocidade, maior a capacidade de manter ritmos elevados por períodos prolongados.
Entre os fatores que influenciam a economia de corrida, dois merecem destaque: o peso nas extremidades dos membros inferiores e a restituição elástica de energia.

Observa-se que o protótipo com ZoomX e placa de carbono apresenta maior deformação (11,9 mm) e maior retorno de energia (87%), em comparação ao modelo com BOOST (75,9%) e ao modelo com EVA (65,5%). Isso indica que materiais mais modernos conseguem armazenar mais energia durante o impacto e devolvê-la de forma mais eficiente, o que ajuda a explicar por que os chamados super-tênis podem melhorar a economia de corrida (Hoogkamer et al., 2018).
A importância de extremidades leves
Durante a corrida, os membros inferiores realizam movimentos pendulares repetitivos. Quanto maior a massa nas extremidades distais — especialmente nos pés — maior será o torque necessário para acelerar e desacelerar esse movimento.
Isso ajuda a explicar por que corredores de elite frequentemente apresentam segmentos distais relativamente leves, como pernas e tornozelos mais delgados.
O uso de calçados pesados adiciona massa justamente na porção distal do membro inferior, aumentando o custo energético do movimento. Esse aumento de demanda mecânica pode contribuir para maior fadiga muscular ao longo da prova e, consequentemente, redução da velocidade nas fases finais da corrida.
Por essa razão, o peso do tênis é uma característica relevante do ponto de vista biomecânico e fisiológico.
Super-shoes e restituição de energia
Durante a fase de contato do pé com o solo, parte da energia mecânica gerada durante a corrida é dissipada na forma de calor.
Estruturas elásticas do sistema musculotendíneo — como tendões e componentes elásticos do músculo — permitem recuperar parte dessa energia, contribuindo para tornar o movimento mais eficiente.
Os chamados super-shoes foram desenvolvidos com o objetivo de aumentar essa restituição de energia (Black et al., 2022).
Esses calçados utilizam espumas altamente deformáveis e resilientes, associadas a placas rígidas de fibra de carbono, que ajudam a estabilizar a estrutura da sola e otimizar a devolução da energia mecânica acumulada durante a fase de compressão.
Os materiais empregados apresentam propriedades mecânicas específicas:
- alta complacência, permitindo deformação sob carga e armazenamento de energia
- alta resiliência, favorecendo o retorno ao formato original e a restituição dessa energia ao sistema
Estudos experimentais têm demonstrado que esses calçados podem reduzir o custo energético da corrida e melhorar a economia de corrida em cerca de 4% (Hoogkamer et al., 2018).
Pode parecer um ganho modesto, mas em contextos de alto rendimento essa magnitude pode ser decisiva. Para maratonistas de elite, diferenças dessa ordem podem representar a fronteira entre completar uma maratona acima ou abaixo de duas horas.
Então vale a pena investir em um super tênis?
Para a grande maioria dos corredores recreacionais, provavelmente não.
Embora os super-shoes apresentem benefícios mensuráveis em termos de economia de corrida e desempenho, esses efeitos tornam-se mais relevantes em níveis competitivos elevados, nos quais pequenas diferenças fisiológicas podem determinar resultados.
Para corredores amadores ou recreacionais, a recomendação mais sensata continua sendo priorizar conforto, ajuste adequado ao pé e um custo compatível com o orçamento.
Se possível, também é prudente evitar calçados excessivamente pesados ou com elevação exagerada do calcanhar.
No fim das contas, o que realmente determina o desempenho na corrida não é o preço do tênis, mas a consistência do treinamento, a adaptação fisiológica ao exercício e o prazer em correr.
Referências
Relph N, Greaves H, Armstrong R, Prior TD, Spencer S, Griffiths IB, et al. Running shoes for preventing lower limb running injuries in adults. Cochrane Database Syst Rev. 2022;8(8):CD013368. doi:10.1002/14651858.CD013368.pub2.
Black MI, Kranen SH, Kadach S, Vanhatalo A, Winn B, Farina EM, et al. Highly cushioned shoes improve running performance in both the absence and presence of muscle damage. Med Sci Sports Exerc. 2022;54(4):633–645. doi:10.1249/MSS.0000000000002832.
Hoogkamer W, Kipp S, Frank JH, Farina EM, Luo G, Kram R. A comparison of the energetic cost of running in marathon racing shoes. Sports Med. 2018;48(4):1009–1019. doi:10.1007/s40279-017-0811-2.
Yawar A, Lieberman DE. Effects of shoe heel height on ankle dynamics in running. Sci Rep. 2024;14:17959. doi:10.1038/s41598-024-68519-z.
Yu L, Mei Q, Xiang L, Liu W, Mohamad NI, Bíró I, et al. Principal component analysis of the running ground reaction forces with different speeds. Front Bioeng Biotechnol. 2021;9:629809. doi:10.3389/fbioe.2021.629809.
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